segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008


A INTERNACIONAL SITUACIONISTA REVISITADA


fonte: lipstickinrage



No ano 2000, "sociedade do espectáculo" tornou-se uma expressão na moda, não tão famosa como "luta de classes" já foi, mas em todo o caso socialmente mais aceitável. Além do mais, a Internacional Situacionista (IS) é agora ofuscada pela sua figura principal, Guy Debord, que é geralmente apresentado como o último revolucionário romântico. Tanto em Berlim como em Atenas, é preciso ir além da moda situacionista para aceder à contribuição da IS para a revolução. Da mesma maneira, tem que se rasgar o véu "marxista" para entender o que Marx realmente disse -- e o que continua a significar para nós.

A IS mostrou que não há revolução sem a comunização generalizada e imediata da vida em todos os seus aspectos, e que esta transformação é uma das condições para a destruição do poder do Estado. A revolução significa pôr um fim a todas as separações, e em primeiro lugar àquela separação que as reproduz a todas: o trabalho, como algo desligado do resto da vida. Livrarmo-nos do trabalho assalariado implica uma desmercantilização da forma como comemos, dormimos, aprendemos e esquecemos, nos movemos de um lugar para outro, iluminamos o nosso quarto ou como nos relacionamos com o carvalho ao fundo da rua, etc.

São banalidades? Pois nem sempre o foram e continuam a não sê-lo para muita gente.

Basta ler os "Princípios da Produção e Distribuição Comunistas", escrito em 1935 pela esquerda germano-holandesa, para perceber a dimensão da evolução. Quanto a Bordiga e seus sucessores, sempre entenderam o comunismo como um programa para ser posto em prática depois da tomada do poder. Lembremo-nos apenas o que se discutia em 1960, quando os radicais debatiam sobre o "poder dos trabalhadores" e definiam a mudança social essencialmente como um processo político.

Revolução é comunização. Isto é tão importante como, por exemplo, foi a rejeição dos sindicatos após 1918. Não estamos dizendo que a teoria revolucionária deve mudar a cada trinta anos, mas que uma minoria apreciável de proletários rejeitou os sindicatos depois de 1914, e outra minoria activa fez da vida quotidiana o alvo da sua crítica nas décadas de sessenta e setenta. A IS ultrapassou os limites da economia, produção, fábrica e obreirismo porque nessa época, de Watts a Turim, os proletas estavam realmente questionando o sistema de trabalho e as actividades exteriores ao trabalho. Mas os dois campos raramente foram alvo de ataque pelos mesmos grupos: os Negros faziam motins contra a mercantilização da vida no gueto, enquanto trabalhadores negros e brancos se rebelavam contra ser reduzidos a apêndices das máquinas, e no entanto os dois movimentos não conseguiram fundir-se. No local de trabalho, por um lado os trabalhadores rejeitavam o trabalho e por outro exigiam maiores salários: o trabalho assalariado em si nunca foi posto de lado. Contudo, houve tentativas para questionar o sistema como um todo, em Itália por exemplo, e a IS foi uma das formas pela qual esses empreendimentos encontraram expressão.

É aqui que a IS continua a esclarecer-nos. E é também onde está aberta à crítica.

O limite da IS reside no seu ponto forte: uma crítica da mercadoria que foi até ao básico sem realmente atingir a base.

A IS recusou e aceitou simultaneamente a esquerda conselhista. Tal como Socialisme ou Barbarie, via o capital como gestão que retirava aos proletários qualquer controlo sobre as suas vidas, e concluía que era necessário encontrar um mecanismo social que permitisse a todos tomar parte na gestão da própria vida. A teoria de Socialisme ou Barbarie do "capitalismo burocrático" dava mais ênfase na burocracia do que no capital. Da mesma maneira, a teoria da IS da "sociedade espectacular" atribuia ao espectáculo no capitalismo mais importância do que ao próprio capital. Na verdade, os últimos escritos de Debord redefiniam o capitalismo como espectáculo plenamente integrado, mas o erro de apreciação já estava lá quando a Sociedade do Espectáculo tomou erroneamente a parte pelo todo em 1967.

O espectáculo não é a sua própria causa. Está enraízado nas relações de produção, e pode apenas ser compreendido através dum entendimento do capital e não inversamente. É a divisão do trabalho que transforma o trabalhador num espectador do seu trabalho, do produto desse trabalho e finalmente num espectador da sua vida. O espectáculo é a nossa existência alienada em imagens que se alimentam dela, o resultado autonomizado dos nossos actos sociais. Começa em nós e separa-se de nós através da representação universal das mercadorias. Torna-se exterior às nossas vidas porque as nossas vidas constantemente reproduzem a sua exteriorização.

A ênfase no espectáculo conduz a uma luta por uma sociedade não espectacular: no pensamento situacionista, a democracia operária funciona como um antídoto contra a contemplação, como a melhor forma possível de criação de situações. A IS estava em busca de uma democracia autêntica, uma estrutura na qual os proletários deixariam de ser espectadores. Procurava o meio (a democracia), o lugar (o conselho) e o estilo de vida (autogestão generalizada) que permitiriam ao povo quebrar os grilhões da passividade.

Não existe contradição entre as variantes Debord e Vaneigem da IS. Tanto o conselhismo como a subjectividade radical enfatizavam a auto-actividade, viesse ela do colectivo de trabalhadores ou do indivíduo.

"Penso que todos os meus amigos e eu ficaríamos satisfeitos em trabalhar de maneira anónima no Ministério do Ócio, para um governo que se preocuparia por fim verdadeiramente por mudar a vida (...)" (Debord, Potlatch, n.29, 1957)

No início, os situacionistas acreditavam ser possível experimentar novos estilos de vida imediatamente. Rapidamente compreenderam que tais experiências requeriam uma reapropriação colectiva completa das condições de existência. Começaram com um assalto ao espectáculo visto como passividade e foram levados à afirmação do comunismo como actividade. Este é um ponto fundamental em relação ao qual não podemos retroceder. Porém, através de todo o processo desta (re)descoberta, a falha foi terem assumido que tem que haver um modo de uso para a vida o que levou à busca de um modo de usar totalmente diferente.

Esta procura por um modo de uso da vida de cada um, estimulou mas ao mesmo tempo deformou a crítica do militantismo desenvolvida pela IS.
Foi necessário expôr a actividade política como uma actividade separada onde o indivíduo milita por uma causa da qual foi abstraída a sua própria vida, onde reprime os seus desejos e se sacrifica a um objectivo estranho aos seus sentimentos e necessidades. Todos já vimos exemplos de dedicação a um grupo e /ou a uma visão do mundo que acabam numa situação em que a pessoa deixa de ser receptiva a eventos reais e se torna incapaz de desenvolver actos subversivos quando eles passam a ser possíveis.

Contudo, só o concurso de relações reais pode evitar que se desenvolva a fraqueza pessoal e o auto-sacrifício alienado. Ao invés, a IS exigia radicalidade total e consistência 24 horas por dia, substituindo a moral militante por uma moral radical, o que também é ineficaz. O relato que a IS faz do seu fim, depois de Maio de 68 é deprimente: porque é que tão poucos membros estiveram à altura da situação? Guy Debord foi o único a consegui-lo? Talvez o principal problema de Debord tenha sido que agiu (e escreveu) como se nunca se tivesse enganado.

Pode ter sido subversivo troçar da falsa modéstia militante chamando-se a si mesmos uma Internacional, e voltar o espectáculo contra si mesmo, como no escândalo de Estrasburgo (1967). Mas o tiro saiu-lhes pela culatra quando os situacionistas tentaram usar técnicas publicitárias contra o mundo da publicidade. O seu slogan "Que o espectáculo acabe!" deteriorou-se em eles fazerem um espectáculo deles próprios, que acabou mesmo por se transformar em exibicionismo.

Não é por acaso que a IS tanto gostava de citar Maquiavel e Clausewitz. De facto, os situacionistas acreditavam que, desde que conduzida com estilo e intuição, uma certa estratégia permitiria a um grupo de jovens brilhantes ganhar aos media no seu próprio jogo e influenciar a opinião pública duma maneira revolucionária. Só isto já mostra uma incompreensão da sociedade espectacular.

Antes e durante 68, a IS encontrava habitualmente a atitude certa face a realidades que precisavam ser ridicularizadas antes de poderem ser transformadas de maneira revolucionária: política, a ética do trabalho, o respeito pela cultura, a a boa vontade esquerdista, e por aí fora. Posteriormente, quando a actividade situacionista começa a desvanecer-se, pouco mais ficou do que uma atitude, e passado pouco tempo nem sequer a atitude correcta, já que caíram na auto-valorização, no feiticismo dos conselhos, numa fascinação pelo lado oculto da política mundial, e ainda as suas análises erradas dos acontecimentos em Itália e Portugal.

A IS foi o arauto da vinda da revolução. O que de facto ocorreu tinha muitas das características anunciadas pela IS. Os slogans de 68 em Paris ou de 77 em Bolonha ecoaram os artigos que tinham sido publicados previamente na revista de capa brilhante. No entanto, não foi propriamente uma revolução. A IS pretendia que tinha ocorrido uma. Democracia generalizada (e sobretudo, a democracia operária) tinha sido o sonho subversivo do fim dos anos 60 e do início dos 70: em vez de perceberem isto como a limitação do período, os situacionistas interpretaram-na como a vindicação do apelo à formação de conselhos. Não conseguiram entender que a autogestão autónoma das lutas de fábrica só podia ser um meio e nunca um fim em si mesmo ou um princípio.

A Autonomia resumia o espírito do tempo: libertar-se do sistema - em vez de desfazê-lo em bocados.

Uma revolução futura será menos a agregação do proletariado como um bloco do que a desintegração do que dia após dia reproduz os proletários enquanto proletários. Este processo significa juntar e organizar no local de trabalho mas também transformar o local de trabalho e libertarmo-nos dele tanto como reunirmo-nos nele. A comunização não será uma repetição de 1966 em San Francisco nem reatará com os sit-downs de fábrica do passado em grande escala.

A IS acabou adicionando conselhismo às ilusões sobre uma arte de viver revolucionária, i.e. um estilo de vida subversivo. Exigia um mundo onde a actividade humana fosse equivalente a um prazer contínuo, e descrevia o fim do trabalho como o começo dum divertimento e dum gozo sem fim. Nunca se livrou duma visão tecnicista e crente no progresso duma abundância gerada pela automação.

Dos escassos grupos que tiveram impacto social na vaga subversiva de meados de 60, a Internacional Situacionista deu a melhor aproximação de comunismo tal como ele era concebido na época. Existia uma incompatibilidade historicamente inultrapassável entre

"Abaixo o Trabalho!"

e

"Poder aos Trabalhadores!"

e a IS situava-se no nó dessa contradição.

Gilles Dauvé, Junho de 2000

sábado, 9 de fevereiro de 2008


A MINHA CAUSA É A CAUSA DE NADA! (*)

Há tanta coisa a querer a ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo! “Que vergonha, a deste egoísmo que só pensa em si!”
Vejamos então como se comportam com a sua causa aqueles para cuja causa se espera que nós trabalhemos, nos sacrifiquemos e nos entusiasmemos.
Vós que sabeis dizer tanta coisa profunda sobre Deus e durante milênios haveis “sondado os enigmas da divindade” e lhes perscrutastes o âmago, vos sabereis decerto dizer-nos como é que o próprio Deus trata a “causa de Deus”, que nós estamos destinados a servir. E de fato vós não fazeis mistério nenhum do modo como o Senhor se comporta. Qual é então a sua causa? Terá ele, como de nós se espera, feito de uma causa estranha, da causa da verdade e do amor, a sua própria causa? A vós, este mal-entendido causa-vos indignação, e pretendeis ensinar-nos que a causa de Deus é sem dúvida a causa da verdade e do amor, mas que não se pode dizer que esta causa lhe seja estranha, já que Deus é, ele mesmo, a verdade e o amor; a vós, indigna-vos a suposição de que Deus possa, como nós, pobres vermes, apoiar uma causa estranha como se sua fosse. “Como poderia Deus assumir a causa da verdade se ele próprio não fosse a verdade?” Ele só se preocupa com sua causa, mas como é tudo em tudo em tudo, e a nossa é bem pequena e desprezível: é por isso que temos de “servir uma causa superior”. Do exposto fica claro que Deus só se preocupa com o que é seu, só se ocupa de si mesmo, só pensa em si e só se vê a si – e ai de tudo aquilo que não caia nas suas graças! Ele não serve nenhuma instância superior e só a si se satisfaz. A sua causa é uma causa... puramente egoísta.
E que se passa com a humanidade, cuja causa nos dizem que devemos assumir como nossa? Será a sua causa a de um outro, e serve a humanidade um causa superior? Não, a humanidade só olha para si própria, a humanidade só quer incentivar o progresso da humanidade, a humanidade tem em si mesma a sua causa. Para que ela se desenvolva, os povos e os indivíduos têm de sofrer por sua causa, e depois de terem realizado aquilo de que a humanidade precisa, ela, por gratidão, atira-os para a estrumeira da história. Não será a causa da humanidade uma causa... puramente egoísta?
Nem preciso de demonstrar a todos aqueles que nos querem impingir a sua causa que o que os move são apenas eles mesmos, e não nós, o seu bem-estar, e não o nosso. Olhem só para o resto do lote. Será que a verdade, a liberdade, o humanitarismo, a justiça desejam outra coisa que não seja o vosso entusiasmo para os servir?
Por isso todos se sentem nas suas sete quintas quando zelosamente lhes são prestadas honras. Veja-se o que se passa com o povo, protegido por dedicados patriotas. Os patriotas tombam em sangrentos combates, ou lutando contra a fome e a miséria. E acham que o povo quer saber disso? O povo “floresce” com o estrume dos seus cadáveres! Os indivíduos morreram “pela grande causa do povo”, o povo despede-se deles com umas palavras de agradecimentos e... tira daí proveito. É o que se chama um egoísmo rentável.
Mas vejam só aquele sultão que tão delicadamente se ocupa dos “seus”. Não será isto o altruísmo em estado puro, não se sacrifica ele hora a hora pelos seus? Exatamente, pelos “seus”. Tenta tu mostrar-te uma vez, não como seu, mas como teu, e vais parar às masmorras por teres fugido ao seu egoísmo. A causa do sultão não é outra senão ele próprio: ele é para si tudo em tudo, é único, e não tolera ninguém que ouse não ser um dos “seus”.
E todos estes brilhantes exemplos não chegam para vos convencer de que o egoísta leva sempre a melhor? Por mim, extraio daqui uma lição: em vez de continuar a servir com altruísmo aqueles grandes egoístas, sou eu próprio o egoísta.
Nada é causa de Deus e da humanidade, nada a não ser eles próprios. Do mesmo modo, Eu sou a minha causa, eu que, como Deus, sou o nada de tudo o resto, eu que sou o meu tudo, eu que sou o único.
Se Deus e a humanidade, como vos assegurais, têm em si mesmos substância suficiente para serem, em si, tudo em tudo, então em sinto que a mim me faltará muito menos, e que não terei de me lamentar pela minha “vacuidade”. O nada que eu sou não o é no sentido da vacuidade, mas antes o nada criador, o nada a partir do qual eu próprio, como criador, tudo crio.
Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a “boa causa”. Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido.
O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre, etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim... única, tal como eu. Para mim, nada está acima de mim! (STIRNER, 2004, p. 9-10-11)

(*) “Ich hab’ mein Sach’ auf nichts gestellt”, literalmente “Fundei a minha causa sobre o nada”, é a primeira linha do poema de Goethe intitulado Vanitas! Vanitatum vanitas!, de 1806.

STIRNER, Max. O único e a sua propriedade. Portugal, Lisboa: Antígona, 2004, 339p.

Saúde, Anarquias e Liberdade!!!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008



Manifesto da Filosofia Bozo

por Reverendo Ibrahim Cesar

Não, os filósofos que seguiram a auto-denominada Filosofia Bozo jamais se levaram a sério. Na verdade, de acordo com o ponto de vista de muitos deles, não havia outra forma de se levar. O principal ponto de ruptura que caracterizou o movimento como uma filosofia diferenciada foi que, se antes tentava-se entender o mundo ou ensinar aos homens o-que-quer-que-seja, isso foi totalmente desprezado pela Filosofia Bozo. Que declarou por um de seus porta-vozes:

“Nosso objetivo é matá-los. Matá-los de rir.”

Ora, dizem eles, caso a filosofia se ocupasse de julgar um dos grandes assuntos e chegasse a um veredito sobre isso, digamos sobre a existência ou a não-existência de deus, que impacto isso teria?

No dia seguinte a tal veredito, de certo as pessoas acordariam como todas as outras manhãs, fariam suas coisas e viveriam como todos os outros dias

A Filosofia Bozo apenas assumiu o que se sabia desde sempre: Não é possível ensinar a quem quer que seja aquilo que ele já acha que sabe.

DEFINIÇÃO DE FILOSOFIA BOZO

A Filosofia Bozo não têm definição e isto vêm direto das páginas do Principia Discordia como muitos devem ter notado. De fato é altamente documentado que os primeiros a aderir ao movimento eram de fato discordianos ou simpatizantes e usaram muitos conceitos discordianos em seus trabalhos.

Rev. Ibrahim Cesar chegou a declarar que a Filosofia Bozo guardada as devidas proporções era uma tentativa de criar um discordianismo laico. Muitos detratores tentavam denunciar essa ligação da Filosofia Bozo com o Discordianismo, como o objetivo de uma se parecia muito com que no Discordianismo se chama Operação:Mindfuck. “A Filosofia Bozo não passa de Mindfuck!” declaravam aos berros ao que eram respondidos em meio a troças deles: “Dizer que a Filosofia Bozo é Mindfuck, é Mindfuck”

Eles queriam resgatar o protagonismo da filosofia que hoje não passava de uma tia velha que ninguém mais dá atenção.

“Estamos cansados de filosofos dedicarem suas vidas a reinterpretarem Nietzsche, Hegel e Kant. Eles estão mortos. A morte sempre teve uma importância fundamental no pensamento humano pois ela elimina os conservadores da geração anterior, relutantes em abandonar uma teoria velha e falaciosa para adotar uma nova e mais precisa. A Filosofia Bozo é imediatista. Queremos falar do aqui e agora e não rever a moral da Grécia Antiga.”

Foi no Manifesto da Filosofia Bozo publicado pela primeira vez na Cabala 1001 Gatos de Schrödinger que Rev. Ibrahim Cesar declarou iniciado o movimento com estas palavras: “Eu sou Rev. Ibrahim Cesar e estou me citando na terceira pessoa a fim de conseguir a tão almejada imparcialidade. Eu declaro que a Filosofia Bozo começa em 5,4,3,2,1…AGORA!”

domingo, 27 de janeiro de 2008


Estão todos gritando rock and roll, mas eu diria que isto já está ficando batido; pertencente ao museu onde sua pútrida alma foi vendida.

O Refused foi uma banda que não teve medo de se apresentar. Eles saltavam de um lado para o outro do palco encenando todos os passos e poses das grandes bandas de rock, guitarras voando e pedestais de microfone dançando. Eles abraçaram seus papéis como estrelas - pelo menos enquanto tocavam. Eles faziam o possível para serem melhores que os roqueiros tradicionais usando seus próprios truques e fórmulas.

E é assim que deveria ser; eles são, afinal, uma banda de hardcore... ou seja, hardcore punk, ou seja, punk rock, ou seja, rock and roll. E o hardcore não é tão diferente assim do rock and roll, independente do que gostamos de acreditar. O hardcore ainda é sujeito às mesmas limitações que o rock and roll apresenta desde que foi retirado do underground negro e transformado em música comercial para o mercado branco adolescente. Ainda os mesmos velhos clichês: a platéia passivamente observando (ou na melhor das hipóteses, dançando), quatro caras com guitarras e bateria, a banda insistindo em procurar por algum acordo que ainda não foi muito usado, a platéia tentando sair de suas fatalmente entediantes realidades ao idolatrar o vocalista, que por sua vez inevitavelmente perpetua toda a farsa com algum "carisma" e egotismo reciclado. Ainda as mesmas relações econômicas, as bandas sendo meios para os capitalistas (corporativos ou privados) lucrarem à custa de todas as outras pessoas - na maioria das vezes a banda em si, que sente que deve ser paga somento pelo status em si. Sempre que uma banda de hardcore sobe no palco para tocar, para desafiar as pessoas e oferecer algo de novo, ela bate de frente com toda a história do rock and roll desde que foi castrado e comodificado. Não é de se admirar que tão poucas delas consigam abrir um caminho realmente novo e crucial, com todo o peso de anos de tradição, o peso morto de nosso passado.

O Refused admitiu tudo isso. Eles não tentaram escapar disso com algum desvio para disfarçar o já esgotado formato; eles aceitaram toda a rotina e a elevaram ao máximo. Alguns disseram que o Refused usou a fórmula do rock and roll para nos chocar, para evadir nossas expectativas; isto é verdade, mas eles fizeram isto nos mostrando o que já sabíamos (mas recusávamos admitir). E eles fizeram isto pelos seguintes motivos: primeiro, para serem sinceros com a embaraçosa herança do punk rock, para traçar toda esta constritiva história e assim poderem confrontá-la, subertê-la, ultrapassá-la. Até que alguém fizesse isto, ela estaria fadada a ser eternamente um fantasma nos assombrando, nos acorrentando.

As performances de rock and roll do Refused estabeleceram um conflito direto entre o passado e o presente em vários níveis. Todas as noites em que eles tentavam colocar tudo para fora, eles eram confrontados por anos de repetição, de drama se transformando em melodrama, de paixão se transformando em farsa; usando os velhos e decrépitos passos de dança, poderiam eles tocar forte o suficiente, com paixão suficiente, com desespero suficiente para escaparem da força gravitacional do passado e fazerem o rock and roll parecer novo mais uma vez por um único momento sequer? Não poderia haver um desafio mais que este, e os melhores shows do Refused mostravam que eles haviam conseguido.

E ao conseguirem, ele alcançaram um ato sagrado de liberação pelas cansadas e decrépitas fórmulas aplicadas. Porque tudo que é um clichê no rock hoje já foi mágico, temido, perigosamente profundo: da primeira vez que um guitarrista saltou ao ar, pode apostar que cada homem e mulher que o viram sentiram o mundo morrer e renascer de novo naquele momento. Lutar através das cicatrizes deixadas por Van Halen e imitadores ainda piores, roubar de volta e fazer com que os passos de dança de James Brown, os truques de guitarra de Little Richard, os poderosos passes de mágica vendidos como comodidades impotentes sejam excitantes novamente, resgatá-los em nome da luta por liberação e paixão da qual o rock and roll sempre foi parte (mesmo que com pouca consciência disto) em seus melhores momentos - fazer os mortos voltarem à vida, literalmente - quer tarefa mais romântica, mais quixoteana, mais bela do que esta?

Outro motivo pelo qual o Refused usava todas as performances do rock and roll foi para trazer à tona a tensão que existe em QUALQUER performance entre "sentimentos verdadeiros" e manipulação. Eles tocavam samplers manipulativos entre suas músicas para foder um pouco com as emoções do espectador, e faziam o mesmo ao utilizar performances que já estávamos previamente programados para responder de uma certa maneira. Vendo o Refused tocar, me senti simultaneamente respondendo à emoções reais e à ironia dos clichês utilizados; e, acima de tudo, eu conseguia até gostar dos clichês. Aquela tensão que existe entre o real e o falso está presente em toda a música de rock, e o Refused trouxe à tona esta dicotomia, brincou um pouco com ela, e ainda subverteu nossas idéias e expectativas ao apagar a linha entre as chamadas "reais" e "falsas" emoções, nos forçando a sair de nossos paradigmas e entrar em um mundo novo onde as velhas distinções são simplesmente inúteis.

Finalmente, o Refused nos forçou a registrar o quociente do entretenimento musical para assim poderem lidar com o problema de serem artistas procurando motivas as pessoas. Performance artística é um esporte de espectadores; sob condições normais, é incapaz de mover as pessoas, não fazendo nada mais do que reforçar sua passividade. O Refused deliberadamente se colocou em um pedestal para que percebamos que NÓS é que estamos observando, que o ambiente de um show de rock NÃO é uma democracia, que o rock and roll NÃO se importa com a liberação do espectador e sim com sua escravidão, para manter contas de banco e egos alimentados e hierarquias exatamente no mesmo lugar. Mas ao mesmo tempo, eles tentaram tocar com tanta paixão que acabaram transcendendo tudo isto. A única maneira de se chegar à motivação e ação através de uma performance artística é mexendo tanto com as pessoas que, apenas ao observar, elas consegue se RE-avaliar. E foi isto que o Refused fez para mim - em toda a minha vida eu nunca estive tão ativamente envolvido em observar alguma coisa. Do mesmo modo que eles se mexiam no palco, eu estava me movendo por dentro duas vezes mais, mudando, crescendo, questionando.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Elaborada pelo Centro de Direitos Humanos de Sapopemba para conscientizar a população do que um policial pode ou não fazer durante uma abordagem e como denunciar abusos. Com ilustrações e linguagem didática, a cartilha explica ainda como e onde denunciar, além de dicas para identificar o agressor de forma discreta. Vale destacar que a segurança privada também deve seguir a cartilha, a lei que serve para a policia que está a serviço do Estado também serve para a privada.

Segundo o promotor de Justiça Eduardo Dias de Souza Ferreira, a cartilha é importante por usar uma linguagem acessível e didática.“Para os policiais, esse material reafirma o que eles já aprendem na academia, além de sinalizar que as pessoas passam a ter conhecimento de seus direitos”.

O medo da população em relação às ações policiais é tanto que, como disse o Padre Júlio Lancelotti no documentário exibido no início do evento, “quando vem a polícia a gente tem que pedir socorro para os bandidos”. Há denúncias de policiais que com apenas um mandado invadem várias casas, de travestis e transexuais que são abordados de forma arbitrária simplesmente por serem quem são, além de mães que são humilhadas por questionar as atitudes dos policiais. E o perfil das vítimas todo mundo já sabe: pessoas em situação de pobreza, jovens e negros.

A cartilha está disponível também no site da Ouvidoria de Polícia (www.ouvidoria-policia.sp.gov.br ) e no site do Observatório de Violências Policial (www.ovp-sp.org) ou no Centro de Direitos Humanos do Sapopemba (Rua Vicente Franco Tolentino, 45 – (11) 6703-6654, o email é cdhs@terra.com.br.

Não fique calado! Veja alguns telefones que podem ser acionados 24 horas por dia:

  • Disque denúncia 181 – crimes cometidos por policias ou não, sem precisar se identificar. Pode ligar do orelhão, sem cartão.
  • Corregedoria da Polícia Militar - 3322-0190
  • Corregedoria da Polícia Civil 3231-5536, Ramal 3231-5536
  • Ouvidoria de Polícia 0800-177-070 - Podem ser feitas denúncias contra policiais civis e militares das 9 às 17 horas.

Em último caso, ligue 190 e explique a situação, pois não são todos os policiais que praticam abusos.


DOWNLOAD
FONTE: SABOTAGEM!

domingo, 13 de janeiro de 2008


Pode ser considerado um, ou algo do tipo, quando me coloco em frente a esse tipo de situação, mas passou a ser inevitável. Um ato falho sim, mas porque é tanta a insistência? Porque eu ainda sou um integrante do comitê de treinamento, sim!
Do Comitê de Treinamento de Macacos Espaciais, localizado em uma rua imaginária perto de você!
Agora podem se perguntar, que maldição é essa?

Não se desesperem porque nosso objetivo é justamente esse, localizar, explicar, persuadir, agradar e treinar você! Todos nós temos lados, somos todos multifacetados, e uma dessas várias somos no fundo no fundo Macacos, Macacos Espaciais! Pena que só você não percebe… talvez não perceba porque ainda não foi escolhido para uma dessas aventuras/treinamentos.
Todos nós obtemos/possuímos, qualidades, características, defeitos, modos, completamente distintos e totalmente variáveis a cada um de nós propriamente ditos.

Só você não reconhece…
Mas o que você faz? Escreve? Desenha? Canta? Xinga? Ou simplesmente não faz nada por pura opção?!
Meus caros, tolice perder esse tanto de tempo… Claro que não, podemos produzir, atenuar, especializar tudo isso que somos capazes e não só sermos considerados parte da estatísticas primata! E que tal fazer sua parte nisso?

O que você vê de errado? Seja modesto, vamos lá!
Não gosta do que lê? Então porque não comenta?!
Estou te incomodando e fazendo você perder seu tempo ao acessar, e pior, estar lendo toda essa baboseira? Então me diga!
Está insatisfeito e não é o suficiente? Vamos lá, tome seu leite com Moloko de hoje!

Estou esperando isso, sei que fará porque você se parece comigo, instintivamente age como eu, você tem seu ato falho quando nega esse tipo de coisa, afinal eu sou você em pessoa!
E porque não seria? Você tem suas insatisfações, suas revoltas, seus prazeres e suas muitas diversões. Você é um individualista mal acostumado e morre de angústia por saber que isso é verdade, eu sou, você é!

Então é isso, já cansei de você, não me parece que seja suficiente e produtivo o bastante dentro de nosso Comitê. Mas digo mais, ainda acredito em sua pessoa… Sentimental isso, não?! Talvez diga a você mesmo que não se interessou por isso, mas seria isso ou seria pelo simples fato de não ser capaz? ha ha! Vamos lá, me mande um email, tente criar alguma resposta a esse texto. Afinal somos todos espertos, inteligentes, modestos e capazes!

John Doe
Cabeça e Fundador – Comitê de Treinamento
anyonejohndoe@gmail.com

domingo, 6 de janeiro de 2008


PROVOS: a contracultura é laranja flourescente!!!!!!


Eles deram o pontapé inicial para a legalização do consumo de drogas na Holanda. Eles transformaram a bicicleta no mais folclórico meio de transporte de Amsterdam. Eles desenharam o uniforme que os Beatles usavam na capa de Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band. Ainda assim, eles eram praticamente anônimos no Brasil - até que a editora Conrad decidiu lançar "Provos: Amsterdam e o Nascimento da Contracultura", do italiano Matteo Guarnaccia. Você pode ir a Amsterdam todo final de semana, mas, até conhecer os Provos, pouco sabe sobre ela.

Como bons anarquistas que eram, os Provos (corruptela do termo "provokatie", ou "provocação") não chegaram a caracterizar um movimento organizado, menos ainda uma ideologia. A intenção desses jovens tresloucados do início dos anos 60 era debochar o mais cinicamente das tradições monárquicas holandesas da Casa Real de Orange e sua protegé , a burguesia consumista - o que, como veremos, conseguiram fazer com o máximo de diversão e ousadia. Ao contrário de seus irmãos caçulas, os românticos hippies, não desejavam mudar o mundo: " Não podemos convencer as massas, e talvez sequer nos interesse fazer isso. O que podemos esperar deste bando de apáticas, indolentes, tolas baratas? É mais fácil o sol surgir no oeste do que eclodir uma revolução nos Países Baixos (...) O homem médio é um comedor de repolhos, improdutivo, não-criativo, emotivo. Alguém que se diverte fazendo fila nos guichês", dizia a primeira de uma incendiária série de edições de revistas "Provo". E ainda: "Provo tem consciência de que no final perderá, mas não pode deixar escapar a ocasião de cumprir ao menos uma qüinquagésima e sincera tentativa de provocar a sociedade".

OS HAPPENINGS

E assim começaram em 1962, através de um formato que seria permanentemente adotado para zombar do status quo até o fim da galhofa, em 1967: o happening, evento efêmero que mistura arte e performance em locais públicos, criado em 1959 em Nova Iorque e imediatamente assimilado pelos artistas de vanguarda do mundo. Os heterogêneos Provos não eram exatamente artistas, mas tomaram o modelo emprestado e o executaram a sua maneira extravagante, a princípio com o único objetivo de espantar o tédio das conformidades. Happenings bizarros começam a espocar em Amsterdam: um sujeito escancara as portas e janelas de sua casa no auge do inverno, abre as torneiras, deixa a água congelar no chão e chama uma patinadora para exibir-se para os transeuntes curiosos; outro amassa papéis, com os quais recobre seu quarto, a calçada e os carros estacionados, gravando o ruído do amassado para posterior exibição em concertos nesta especialidade; dois times de ciclistas despem-se enquanto pedalam, até chocarem-se nus uns contra os outros. No entanto o caso mais assombroso foi o de Bart Huges, um estudante de medicina que em 1958 havia servido de cobaia nos experimentos com LSD na Universidade de Amsterdam. Huges realizou trepanação na própria caixa craniana (quer dizer, fez um furo no meio da testa com uma broca de dentista) e retirou o curativo para uma platéia ao som de tambores. Ele acreditava que seu "terceiro olho permanentemente aberto" lhe expandiria a consciência para sempre - e, é claro, aproveitou a oportunidade para chocar a massa incrédula.

Os caras eram do barulho, mas se até hoje você jamais havia escutado falar deles, a culpa não é sua. Matteo Guarnaccia explica que, além do simples fato do bando de doidos Provos estar circunscrito à Holanda, alardeando suas causas válidas e idéias cretinas através dos tablóides escritos em holandês, a ele "faltou também aquele megafone fundamental representado pela música pop. Se no mundo anglo-saxão o movimento pacifista e alternativo pôde contar com grupos ou cantores de música folk para amplificar e difundir sua mensagem, nada parecido aconteceu na Holanda, do ponto de vista musical".

As excursões Provo para fora da Holanda foram poucas e breves. Passaram pelo Marrocos, Ibiza, ilhas gregas (antecipando-se em pelo menos quatro anos às badaladas migrações hippies) e estabeleceram-se por algum tempo em Londres, tornando-se ícones da casta de artistas psicodélicos. Foi quando desenharam os figurinos de Sgt Pepper´s, e a Provo Marijeke Koger tornou-se a grande estilista dos malucos ingleses, aproveitando para executar um happening onde fez a dança dos sete véus inteiramente nua, pintada com cores fluorescentes.

CIGARROS, SÓ MARIHU

Foi em 62, com Robert Jasper Grootveld, que a saga começa a tomar um formato mais ou menos definido. Grootveld, um fumante inveterado, decide começar uma hilariante campanha antifumo por Amsterdam, por onde anda totalmente fantasiado de feiticeiro africano, pintando a palavra "câncer" sobre todos os cartazes publicitários de cigarros das ruas. Foi preso algumas vezes, chegando, gratuitamente, às mesmas páginas de jornais que as corporações de tabaco pagam milhões para anunciar. Uma vez solto, usou um casebre velho numa região boêmia para realizar rituais antifumo que atraíam cada vez mais pessoas; mais tarde, transferiria os eventos para a praça Spui que, além de exibir uma estátua presenteada pela Hunter Tobacco Company para a cidade, ficava estrategicamente próxima à maioria das redações dos jornais.

Em 64, no clímax de seus protestos, já considerado um herói na cidade, Grootveld junta-se a Bart Huges para lançar o Marihu Project, um plano para reivindicar a legalização da maconha (afinal consideravam o cigarro uma "droga legalizada") e tirar um sarro da polícia. Espalharam por Amsterdam centenas de maços pintados à mão com desenhos fluorescentes, contendo baseados feitos com folhas secas catadas dos parques, algas, palha, pedaços de cortiça e também, naturalmente, a boa e velha cannabis. Concomitantemente, fazem circular cartas com as regras do jogo: "Cada um pode fabricar sua Marihu (...) Cada qual pode criar suas próprias regras, ou omiti-las".

O happening é um sucesso retumbante, em pouco tempo as centrais telefônicas da polícia estavam congestionadas com chamadas anônimas de cidadãos denunciando os próprios vizinhos como usuários de maconha, a maioria delas feitas pelos próprios Provos para causar confusão. Os homens da lei são obrigados a um ritmo de trabalho estressante, chegando a declarar para a imprensa que a situação começava a se tornar "problemática". Grootveld observa, muito apropriadamente: "Para dar caça a alguns consumidores de erva, uns agentes, notórios consumidores de nicotina, efetuam incursões-surpresa, que depois são propagandeadas na imprensa, mediante artigos escritos por jornalistas amiúde alcoolizados e lidos por um público que, por sua vez, é escravo da televisão ou da nicotina. Quem tem direito de dizer ao outro que não deve consumir uma determinada substância?"

PROVOLIFERAÇÃO

Em 65, reuniões na Spur à toda, a própria família real holandesa dá a deixa para a institucionalização da zorra Provo. A princesa Beatriz decide casar-se com Claus von Amsberg, um diplomata alemão que servira nas fileiras do exército nazista. Sofisticadas manobras políticas foram executadas, nos bastidores, pela Casa Real de Orange para reverter a péssima repercussão inicial que o noivado conseguiu junto à população e à imprensa. Quando o mal-estar parecia contornado, chega às ruas a terceira edição do tablóide Provo, atacando o futuro príncipe por todos os lados. O provotariado os esconde dentro dos jornais matutinos, sobretudo os sensacionalistas conservadores; em resposta, a imprensa começa imediatamente a atacar os Provos, fornecendo a primeira e necessária publicidade à causa anticasamento de nossos heróis. Para consolidar a rixa, na ocasião do desfile de lancha de Beatriz e Claus pelos canais de Amsterdam, alguns Provos lançam cópias da terceira edição da revista, sobre o casal.

A esta altura, tanto o prefeito como o chefe de polícia da cidade ensaiam posturas linha-dura para lidar com os rebeldes. Mesmo assim os embates são sempre bastante frustrantes: ao contrário dos manifestantes clássicos, os Provos não reagem aos cassetetes dos agentes; apenas dispersam-se e voltam a juntar-se alguns quilômetros mais adiante, num claro esquema de manifestação não-violenta - modelo que se tornaria a tônica das passeatas antibélicas e antiditadura que dominaram a Europa e as Américas na década de 60. Diversas edições dos tablóides Provo são apreendidos, seus editores multados por utilizarem fotografias sem licença. Mas tudo isto só servia para disseminar suas mensagens, alavancando sua popularidade.

Então, em pleno boom automobilístico, os rituais antifumo da Spur transformam-se em campanha anticarro. Os Provos iniciam sua cruzada contra os motoristas, "consumidores hidrocarburodependentes mimados pelos traficantes de petróleo". Recusam-se a participar do sonho-classe-média de adquirir um automóvel, reivindicando o direito de não consumir; chamam a atenção para o tombo que os carros causam à qualidade de vida das cidades, entupindo o espaço público, causando acidentes e envenenando o ar; e, com o Plano da Bicicleta Branca, proclamam um meio de locomoção "socialmente responsável".

É quando publicam um manifesto na quinta edição do tablóide; depois, endereçam uma carta à prefeitura, reivindicando a compra de 20 mil bicicletas brancas comunitárias por ano. A idéia era que estivessem permanentemente disponíveis nas ruas para uso gratuito do cidadão comum, e que este as deixasse para o usuário seguinte quando cumprisse seu trajeto. O plano foi copiado, com sucesso, ao redor do mundo: Estocolmo, Oxford, Berkeley. Em Amsterdam, os próprios Provos espalharam bicicletas pela cidade, e simpatizantes da causa começaram a levar as suas para serem pintadas de branco nas reuniões semanais. Os policiais confiscaram as bicicletas comunitárias com a ridícula justificativa de que, como não tinham dono, representavam um estímulo ao roubo; e começaram a reprimir os encontros da Spui com progressiva violência, transformando-os em choques em praça pública. Entre reuniões com delegados, prisões e manchetes enraivecidas nos jornais, os Provos fizeram diversas tentativas de pacificação da situação, sem sucesso.

Com os ânimos libertários em ebulição, ainda lançaram o Plano das Mulheres Brancas de liberdade sexual (já pedindo a venda de camisinhas a preços baixos), que poucos anos depois seria a tônica do movimento feminista e de direito dos homossexuais; fizeram manifestações anticolonialistas, condenando a política repressiva contra os indonésios que lutavam pela independência, e de direitos humanos contra as ditaduras de Franco (Espanha) e Salazar (Portugal); constituíram pequenas comunidades alternativas rurais; e puxaram os protestos contra a guerra do Vietnã, criando um escarcéu delirante diante da embaixada americana local. Ainda sobrava energia para esportes menos engajados, como pintar a casa do prefeito de branco ou suspender uma discussão sobre o casamento da princesa Beatriz no Parlamento de Haia usando uma sirene de bombeiro.

As apreensões das revistas Provo ofereceram grande publicidade para a publicação, que passou das iniciais 500 cópias para as 20 mil cópias da derradeira edição. Na esteira desse crescente sucesso, 1965 foi o ano da explosão da imprensa underground holandesa, pasquins pipocando por todo país. Tinham concepção gráfica inovadora e inspiraram publicações por todo o globo, como a londrina It, que por ser em inglês se tornaria referência internacional do gênero. Em 64, Grootveld, visionário, disse que "os jornais se tornarão cada vez mais conformistas, cada vez mais corruptos, cada vez mais dependentes dos sindicatos da droga e da nojenta classe média (...) Vai se desenvolver um sentimento de dúvida em relação aos meios de comunicação. O resultado será o florescimento de uma imprensa descentralizada, talvez até mesmo ilegal (...) No futuro, cada um terá seu pequeno jornal. Porque não podemos esquecer que temos uma revolução ao alcance das mãos". A internet, com seus sites independentes e blogs, está aí para confirmar.

ESTRELATO EXIGIU DESINTEGRAÇÃO

As semanas que se antecipavam ao casamento da princesa Beatriz com Claus desencadearam uma verdadeira paranóia acerca do que os Provos estariam planejando para a ocasião. Os rumores variavam de homens-rãs treinando para despontar pelos canais durante o cortejo real, gravações com estampidos de armas e estouros de bombas para levar a polícia a responder com fogo, até o despejo de LSD no aqueduto da cidade, para fazer a população viajar durante a cerimônia. Equipes de químicos analisam diariamente a água, a polícia invade a casa do provotariado, grampeiam telefones. De nada adianta. Em 10 de março de 66, dia do casório, Amsterdam está em estado de sítio, acessos bloqueados, hospitais em prontidão, helicópteros rodopiando, os noivos com colete à prova de balas por baixo da indumentária nupcial. Os Provos declararam o "dia na anarquia" e começaram lançando cerca de duzentas bombas de fumaça nas salas de imprensa internacionais e pelas ruas. O caos tomou conta da cidade, a multidão ensandecida corria dos policiais a cavalo, que os espancava até que perdessem os sentidos. Os choques começaram de manhã e duraram até alta madrugada. De dentro da igreja ouvia-se o coro gritando "República". Um Provo conseguiu deter a carruagem real atirando uma galinha branca nas pernas dos cavalos que a puxavam, e foi jogado dentro do canal por um grupo de monarquistas.

O resultado publicitário alcançado pelos Provos foi o melhor possível, no dia seguinte todos os principais jornais do planeta noticiavam a esbórnia - a maioria, evidentemente, chamando-os de "indígenas", uma "subespécie humana". Em contrapartida, legiões de cabeludos de todos os continentes começam a invadir Amsterdam. Nove dias depois do casamento, é aberta a exposição fotográfica "10-3-66", com imagens da recente brutalidade da polícia. Os Provos aproveitam para lançar o Plano das Galinhas Brancas, onde divulgam o zombeteiro programa "Amigos da Polícia", exigindo, entre outras cretinices, seu desarmamento. Instantes mais tarde os homens da lei juntam-se ao evento, reproduzindo a performance do dia 10 de março. A televisão transmite o pandemônio.

Com a popularidade nas estrelas, o provotariado pensa em lançar dois candidatos para as vindouras eleições da Câmara dos Vereadores de 1 o de junho de 66. Instala-se uma discussão animada no grupo, uns achando que a idéia fere o princípio anarquista, outros pensando que os rebaixaria do eletrizante status de movimento de rua à indigna força política institucional. No entanto, movidos pela possibilidade de fiscalizar os políticos de perto e descansar da polícia, lançam 13 candidaturas, cobrindo Amsterdam com espetacular propaganda política: colagens enormes, sutiãs pintados, decoração natalina, esculturas com cores fluorescentes, pincéis colados em muros - todos com o número da chapa, 12. Os slogans variavam de "Vote Provo para ter tempo bom!" a "Vote Provo e darão boas gargalhadas!"; os comícios aconteciam na praça Spui; os programas de governo incluíam os Planos Brancos (bicicletas, mulheres, galinha, etc). Conseguiram inacreditáveis 13 mil votos (2,5%) e amealharam uma cadeira, que foi ocupada em regime de rodízio por cinco diferentes Provos ao longo dos cinco anos de mandato. O primeiro deles, De Vries, vai à Câmara descalço e arrota cada vez que inicia um discurso para os colegas. "É a prova viva de que os Provos não estão interessados no poder, não o querem e não sabem o que fazer com ele", diz o autor do livro.

A saga Provo ainda atraiu os rançosos estudantes situacionistas franceses, que pretendiam analisá-los; dá matérias históricas nos principais jornais psicodélicos americanos, dando uma lavada em seus leitores ao insinuar que os hippies pouco sabem sobre contracultura; e começam a ver a si próprios se tornarem pop: uma agência de turismo inclui uma visita à Spui na agenda de passeios e o órgão estatal para turismo organiza, numa cidade próxima a Amsterdam, falsos happenings, com encenações envolvendo falsos Provos e falsos policiais, tudo muito à la Disneyworld.

Para não se tornarem caricaturas de si próprios, já que são plenamente conscientes de que estão atuando na sociedade do espetáculo, em maio de 67 nossos protagonistas decidem baixar as cortinas. Fazem-no através do 15 o número do tablóide e uma festa de despedida no Vondel Park. Afinal, sem o apoio do chefe de polícia e o prefeito de Amsterdam, que foram despedidos por ineficiência, não fazia mais tanto sentido.





(ROUBADO de www.mood.com.br)